Reconstruindo a Ava: um guia passo-a-passo

Muitos de vós têm expressado o vosso interesse no processo de reconstrução facial da Ava. Por conseguinte, Hew Morrison trabalhou arduamente nos últimos dias na elaboração de uma explicação acessível que nos ajude a compreender como é que ele procedeu à criação da reconstrução facial de Ava em duas dimensões (2D).

Hew Morrison é Mestre em Arte Forense desde 2014 pela Universidade de Dundee, sendo que continua a trabalhar desde então enquanto artista forense.

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O cranio. – Michael Sharpe (c)

O que resta do crânio humano é extremamente delicado e, claro, completamente insubstituível. O método que possibilita uma reconstrução a três dimensões pode ser bastante intrusivo, pois pressupõe a utilização do crânio como molde para a criação da cópia em gesso. Assim, este processo pode ser agressivo e nós queríamos evitar danificar o crânio. É possível proceder a uma reconstrução tridimensional (3D) utilizando equipamento de digitalização a laser e software de reconstrução 3D, porém, sem acesso a este equipamento dispendioso, Hew decidiu executar uma reconstrução facial utilizando o método bidimensional (2D). A etapa inicial do processo foi a realização de um diagnóstico do crânio para confirmação da sua idade (estimativa da idade à morte), sexo e ancestralidade (afinidade populacional). Hew determinou (tal como outros especialistas) que o crânio seria possivelmente de um indivíduo jovem do sexo feminino, entre os 17 e 20 e poucos anos, baseado no desgaste dentário e na ossificação das suturas cranianas (desaparecimento das fontanelas). Na etapa seguinte, o crânio foi colocado no que é conhecido por Plano Horizontal de Frankfort que simula a posição normalizada do crânio humano em repouso. O crânio foi então fotografado a uma distância de aproximadamente 1,82 metros, para evitar distorção da lente, com escala, o que permitiu a recolha de medidas depois da imagem ter sido digitalizada e aumentada para tamanho real. Parte do osso zigomático (bochecha) no lado esquerdo da face encontrava-se ligeiramente danificado ou erodido. Para a reconstrução do segmento em falta, foi desenhada uma linha vertical foi no centro do crânio (o eixo central) a partir da qual foram prolongados planos horizontais, estreitamente espaçados entre si, em direção ao osso zigomático completo que se encontra no lado direito da face. Os planos do lado direito do crânio foram então espelhados a partir do eixo central para o lado oposto, recriando o osso zigomático esquerdo incompleto tal como este teria sido em vida. Para a reconstrução da mandíbula em falta (maxilar inferior) do crânio, Hew aplicou o método presente no livro The Human Skeleton in Forensic Medicine (1962), do pioneiro antropologista americano, Walter M. Krogman. Ao utilizar este método, Hew conseguiu elaborar um esboço de como seria o maxilar original, assim como, a sua correta posição e tamanho em correlação com o restante crânio. Em seguida foram retiradas medidas dos pontos mais baixos da abertura nasal a partir dos quais, com o auxílio de uma fórmula, se procedeu ao cálculo da largura do nariz. Apesar de alguns dos dentes se terem soltado com o tempo, grande parte da dentição sobreviveu, incluindo dentes dos maxilares superior e inferior. Através da medição do esmalte dos dentes, foi possível proceder ao cálculo do tamanho dos lábios, uma vez que os cantos da boca situam-se normalmente entre os caninos e os primeiros pré-molares.

De modo a recriar a espessura do tecido humano entre o osso e a pele, foram aplicadas ao crânio as médias modernas representativas do tecido humano para o sexo feminino caucasiano europeu, tendo em conta o intervalo de idades identificado. O olho humano tem normalmente 24 milímetros de diâmetro (coincidente com o tamanho da moeda de $0,25 dos E.U.A.), assim, os olhos foram desenhados digitalmente e colocados na posição apropriada em cada órbita ocular em correlação com a anatomia e a forma de cada uma. Finalmente, os músculos faciais individuais foram também eles desenhados digitalmente e adicionados na posição correta, tendo em conta as marcas conetoras musculares presentes no crânio.

Stage 7

Reconstrução do crânio que apresenta os marcadores faciais, o tamanho e posição dos olhos, profundidade do tecido humano, reconstrução do maxilar e reconstrução do osso zigomático esquerdo (bochecha) – Hew Morrison ©

Hew tem em sua posse uma base de dados extensa com imagens de alta resolução de feições humanas, nomeadamente de diversos indivíduos caucasianos. Com vista a reconstrução final, foi adicionada pele humana, sendo que esta detinha características de vários indivíduos que correspondiam às características, assim como, a forma de rosto apropriada. Contudo, uma vez selecionadas as características apropriadas, estas foram ajustadas para corresponderem à anatomia craniana do indivíduo. Todas estas características foram construídas em camadas individuais, porém, na etapa final, estas foram misturadas e harmonizadas (como num puzzle) para criar o produto final.

(NEW) Stage 8

Os músculos faciais desenhados digitalmente foram adicionados ao crânio na posição correta, tendo em conta as marcas conetoras musculares. – Hew Morrison ©

Hew tem em sua posse uma base de dados extensa com imagens de alta resolução de feições humanas, nomeadamente de diversos indivíduos caucasianos. Com vista a reconstrução final, foi adicionada pele humana, sendo que esta detinha características de vários indivíduos que correspondiam às características, assim como, a forma de rosto apropriada. Contudo, uma vez selecionadas as características apropriadas, estas foram ajustadas para corresponderem à anatomia craniana do indivíduo. Todas estas características foram construídas em camadas individuais, porém, na etapa final, estas foram misturadas e harmonizadas (como num puzzle) para criar o produto final.

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Reconstrução final que revela e salienta os músculos faciais reconstruídos. – Hew Morrison ©

No que se refere ao estilo do cabelo, Hew selecionou o que pensava que melhor se ajustaria a alguém que viveria na Idade do Bronze: uma aparência que não fosse moderna ou que se destacasse demasiado. Não foi acrescentada roupa, pois não sobrevivem vestígios suficientes que sugiram com exatidão como é que a população se vestia neste período. A cor do cabelo e dos olhos foram escolhidas tendo em conta a população moderna da área geográfica: cabelo castanho e olhos azuis são possibilidades bastante plausíveis para este indivíduo. No entanto, é possível que este indivíduo tivesse cabelo loiro, ruivo ou escuro; ou olhos castanhos, cor-de-avelã ou verdes. Esperamos assim, que os resultados da atual análise de ADN antigo, que se encontra a ser realizada pelo Museu de História Natural em Londres, nos possa informar mais sobre a cor do cabelo e dos olhos.

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Reconstrução bidimensional final completa. – Hew Morrison ©

Tradução do original para Português (PT) por Patrícia Azevedo Costa, licenciada em Arqueologia pela UNLFCSH e mestre em Estudos Celtas e Escoceses pela University of Edinburgh.

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2 Comments Add yours

  1. Tailane Vieira quaresma says:

    Parabéns. Incrível o trabalho de vocês.

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